The Vertigo Tarot

The Vertigo Tarot, por Dave McKean e Rachel Pollack – DC / Vertigo

Arte

A arte desse Tarot é assinada pelo ilustrador Dave McKean, responsável também pelas incríveis capas da série de quadrinhos The Sandman, de Neil Gaiman (a minha série de quadrinhos favorita de todos os tempos). O trabalho de Mckean é instigante, perturbador, ainda que, sob meu ponto de vista, esteticamente agradável – opostos que em um trabalho artístico nem sempre são facilmente conciliáveis. Como sou fã do trabalho dele há muito tempo, tinha expectativas altas em relação a arte dos Arcanos, e realmente não me decepcionei. Toda a minúcia, o clima onírico, sombrio e inspirador – no melhor estilo McKean – encontra-se nas ilustrações. O verso das lâminas também é bonito, com uma ilustração criada especificamente para este fim.

A edição que possuo é a da foto acima: caixa (com o lettering em hot stamp), livro, saco de veludo negro para acomodar as cartas. Tudo perfeito até… chegar no Tarot em si. Para minha decepção, um erro primário no acabamento das lâminas: pode-se sentir as rebarbas nas laterais das cartas! Sim, as cartas apresentam resíduos de picotes, em um acabamento pobre e relapso, justamente no baralho! Cheguei a considerar uma ofensa um acabamento deste nível para um material tão bonito e intenso.

Ainda assim, trata-se de um belo Tarot para colecionadores e fãs de quadrinhos.


Simbologia

Este é um tipo de Tarot completamente descomprometido com a simbologia clássica, ainda que se possam encontrar algumas referências em alguns arcanos. A simbologia utilizada nas lâminas desse Tarot é reinterpretada, abstraída, até mesmo distorcida, e a proposta é que os personagens do selo de quadrinhos Vertigo assumam os papéis da maioria dos Arcanos Maiores de acordo com suas características e as suas histórias. Por exemplo, o Arcano sem número – o Louco – traz como personagem John Constantine (Hellblazer), pois ambos possuem um caráter desprendido, inconsequente e livre.

Não cabe aqui portanto, uma análise comparativa com a simbologia dos Tarots mais tradicionais. Quanto a relação de personagens da Vertigo utilizados nas lâminas, pode ser encontrada no próprio livro que acompanha o Tarot.

The Baroque Bohemian Cats’ Tarot

The Baroque Bohemian Cats’ Tarot, por Karen Mahony e Alex Ukolov – Magic Realist Press

Arte

O Tarot é realmente lindo. A arte mistura ilustração com colagem fotográfica, e as imagens são todas em estilo barroco, ambientadas em Praga e Cesky Krumlov.  Os gatos são retratados antropomorficamente, em figurinos ricos em detalhamento, texturas e cores; exceto nos Ases de cada naipe, onde os gatos são representados em sua forma natural. A moldura das lâminas é muito bonita, um floral estilo tapeçaria; e o verso é ricamente ilustrado. Apesar de maravilhoso, infelizmente algumas cartas são muito estranhas… A carta da Lua traz uma gata de beleza questionável, pois lembra um rato e tem um pescoço muito largo. No Ás de Paus, temos um gato com a cabeça muito grande em proporção ao corpo, o que causa um certo desconforto. O Rei de Copas é um persa branco extremadíssimo – deformações físicas em busca de um padrão de raça que acabam com a beleza e a saúde do animal. (Nota: não que eu tenha algo contra raças – o que sou absolutamente contra são as manipulações genéticas em busca de um resultado estético na maioria das vezes duvidoso e que trazem gravíssimos problemas de saúde para o felino).

Entretanto, o pior defeito do Tarot é trazer, em diversas ocasiões, gatas com a pelagem escama de tartaruga (tortoise shell) em vestimentas masculinas. Esta é uma pelagem que só aparece em fêmeas, e por desconhecimento dos autores, foram retratadas com o sexo errado. No livro que acompanha o Tarot isso é relatado; na minha opinião deveriam ter substituído as ilustrações quando tomaram conhecimento do fato. As cartas onde ocorrem esse erro são: o Louco, o Mago, os Enamorados e, menos gravemente, no 5 de Espadas.


Simbologia

Os Arcanos Menores têm sua simbologia bastante semelhante às cartas do Tarot de Rider Waite. Já nos Arcanos Maiores, embora a maioria das lâminas apresente uma simbologia que se aproxima da representação clássica, existem diversos erros crassos e distorções que comprometem bastante o significado das cartas. São elas: No Arcano Zero, o Louco, o gato retratado é uma fêmea (apesar da vestimenta masculina) e falta o símbolo do cão no tornozelo. O mesmo erro de gênero ocorre também no Arcano I, o Mago.  Os significados dessas cartas exigem a representação de uma figura masculina, e a escolha de gatas escama de tartaruga para ilustrar essas lâminas não deixa dúvidas que se tratam de fêmeas, ao menos para quem entende um pouco de felinos. Além disso, foi escolhida uma gata da raça Persa, bem extremada, para representar o Arcano I – o que considero uma escolha totalmente equivocada pois essa carta traz uma dinâmica de agilidade, habilidade e movimento, e a raça Persa tem como características típicas a calma, a doçura e tranquilidade. O mesmo erro de gênero ocorre no Arcano dos Enamorados: a carta deveria representar um casal e acaba por retratar duas fêmas.  Nos Arcanos a Imperatriz, o Imperador, o Hierofante, a Força, a Estrela e o Sol, nem todos os símbolos se encontram presentes, mas o sentido geral das cartas é bem representado. Os Arcanos X – Roda da Fortuna, e XXI – O Mundo, apesar de belos, não trazem em sua representação nenhum simbolismo relacionado ao significado original dessas cartas.

Tarot of White Cats

Tarot of White Cats , por Severino Baraldi – Lo Scarabeo / Llewellyn

Arte

No geral é um Tarot bonito, leve, com uma boa diagramação e uma paleta de cores bastante harmônica. A moldura das lâminas é muito legal, pois simula gatinhos entalhados em madeira dourada. Entretanto, nota-se uma preguiça generalizada das editoras em investir em um verso decente para as lâminas… Parecem não levar em consideração que o verso é justamente a primeira coisa que as pessoas vêem durante o jogo, e, dependendo da configuração, fica bastante tempo exposto. O verso desse Tarot é horrível e sem critério: é a imagem do Ás de Copas duplicada e invertida, com um fundo azul que absolutamente não dialoga com a arte das lâminas, nem em cor, nem em técnica.

Quanto aos gatos, são representados antropomorficamente. A maioria das ilustrações é muito bem executada, entretanto algumas delas são realmente decepcionantes. Preguiça de refazer? Falta de critério? Realmente fica difícil avaliar, pois a maioria das imagens é bem desenhada. Entre as bizarrices presentes nas ilustrações mal feitas: falta de proporção, olhos demasiadamente próximos ou afastados, caras que mais parecem de ratos do que de gatos, mas o pior de tudo mesmo é a carta do Louco, que traz um cachorro no lugar do gato! Mais uma vez me pergunto: por que estragar assim o Tarot? É uma representação completamente desnecessária e fora de contexto. Entre as outras cartas que considero as mais mal desenhadas: a Força (representação estranha do Arcano, além da falta de proporção absurda entre o gato e o leão), Ás de Copas (o gato parece um rato), Rei e Rainha de Paus (gatos feios), Rainha e Cavaleiro do Copas, Rei, Rainha e  Ás de Espadas, Rei e Sete de Ouros (erros grotescos de proporção na face felina). Este Tarot tem várias outras ilustrações com gatos meio feios também, mas que no geral não me incomodam tanto. É uma lástima, pois a presença dessas cartas mal desenhadas me tira um pouco a vontade de usar o Tarot, que em geral é bonito e trabalha muito bem a simbologia.

Simbologia

Este Tarot segue muito fielmente a simbologia presente no Tarot de Rider – Waite. Todos os símbolos essenciais estão lá, tanto nos Arcanos Maiores quanto nos Arcanos Menores. Exceções as cartas do Louco, pois é totalmente desnecessário dentro do contexto que o cachorro assuma o lugar do gato; e da Força, pois retrata um gato minúsculo dentro da boca de um leão (embora em ambos casos, o sentido geral da carta esteja bem representado).

Medieval Cat Tarot

Medieval Cat Tarot, por Lawrence Teng – U.S. Games

Arte

A proposta do Tarot é retratar gatos em estilo medieval, o que é alcançado sobretudo no figurino dos felinos, que são representados antopomorficamente. Os gatos não são especialmente bonitos e são todos iguais, na cor creme / alaranjado, e os tons predominantes das cartas são o ocre e o marrom, o que confere um ar um tanto pesado e monótono ao baralho. Entretanto, os desenhos são todos coerentes, não incorrendo em erros de proporção  e outras esquisitices e bizarrias que encontrei em outros Tarots. Curiosamente, a carta do Diabo não traz um gato em sua representação – e sim uma raposa com uma máscara de gato – o que pessoalmente considero uma representação equivocada e fora de contexto. Os Ases dos Arcanos maiores também não apresentam gatos em sua simbologia: Paus é representado por um lagarto, Copas, por um peixe, Espadas por águias e Ouros, por ratos. A arte dos Arcanos Menores é bastante criativa, pois a cena geral traz uma representação clássica desses Arcanos (com o símbolo do naipe em questão na numeração apresentada – por exemplo: três de ouros mostra três moedas), porém ao centro da lâmina vemos um pequeno desenho oval retratando a situação expressa pelo Arcano, unindo em sua representação o estilo medieval e o moderno.

Simbologia

Embora os Arcanos Maiores não sejam totalmente fiéis à simbologia clássica, faltando alguns símbolos importantes para a correta interpretação do Arcano, na grande maioria das cartas o contexto geral de seu significado é muito bem representado, e o simbolismo utilizado se aproxima bastante do original. Exceto no Arcano XV, o Diabo, que apresenta uma releitura totalmente distorcida do simbolismo desta carta. Os Arcanos Menores são muito eficientes em traduzir as situações por eles representadas.

22 Arcani “Gatti”

22 Arcani “Gatti” , por Osvaldo Menegazzi – Il Meneghello

Arte

Este mini Tarot é muito fofo. O tamanho das cartas é de 7X5 cm  e a apresentação é toda artesanal. Fabricado na Italia, a embalagem é feita a mão, parecendo um mini livro de capa dura. O fundo é marmorizado e a imagem é a carta do Louco (Il Matto) colada na capa. Você fecha a embalagem com um top de fita mimosa.

Dentro encontramos 22 lâminas desenhadas a bico de pena, tinta preta impressa em papel creme. Os desenhos em geral são bonitos e o aspecto do baralho é coerente. Entretanto, a carta da Lua parece fugir do contexto por apresentar um traço mais “cartoon” que os demais. Infelizmente, nas cartas da Imperatriz e Roda da Fortuna, os gatos tem olhos demasiadamente próximos – erro comum nos desenhos de felinos a mão livre – e na carta da Sacerdotisa a proporção da cabeça do felino parecer exagerada em relação ao corpo.

Embora os gatos apareçam protagonizando as situações, no máximo portam adereços ou objetos, mas não se tratam de gatos antropomorfizados.

Simbologia

Este Tarot possui apenas os 22 Arcanos Maiores, portanto não o utilizo em consultas, por ser incompleto. Ainda assim, acho interessante observar a simbologia empregada nas ilustrações dos Arcanos.  Embora nenhuma das cartas traga a totalidade da simbologia presente nas representações clássicas, a maioria das lâminas conserva os símbolos que mais caracterizam o Arcano, exceções feitas à carta da Força, que retrata um gato prendendo um ratinho pela cauda, e a do Enforcado, onde quem está pendurado é um peixe,  não o protagonista da situação.

Tarot of the Cat People

Tarot of the Cat People, por Karen Kuykendall – U.S. Games

Arte

Neste Tarot ricamente ilustrado, os gatos acompanham as personagens humanas, tanto em sua forma felina quanto como detalhes nos objetos e imagens de fundo. A padronagem das roupas dos personagens lembra um pouco do trabalho de Gustav Klimt, mas essa característica não se encontra nos traços dos personagens. As cores são maravilhosas e ele é todo bem ilustrado.

Além de gatos domésticos, aparecem também felinos selvagens nesse Tarot – acompanhando as cartas da corte dos arcanos menores e em alguns arcanos maiores também.  Tigres para copas, Onças para Ouros, Panteras Negras para Espadas e Linces para Paus. O Leão é visto no arcano maior o Sol, representando o próprio.

Simbologia

Arcanos Maiores: Alguns arcanos maiores são bastante fiéis a simbologia clássica. Todos eles, de alguma forma, conseguem transmitir o contexto geral do significado da carta – mas a simbologia, em alguns arcanos foi distorcida ou omitida. Parece preciosismo, porém essas distorções e omissões alteram o verdadeiro significado da carta.

Na carta da Sacerdotisa, não encontramos os livros ou chaves, e nem ela – nem o Imperador, nem a Imperatriz – encontram-se sentados em seus tronos. Faltam os escudos nessas duas últimas cartas, e os símbolos de fertilidade que geralmente se encontram aos pés da imperatriz (frutas, fartura).  No Papa, faltam as colunas e as pessoas de costas. A carta dos Enamorados encontra-se bastante distorcida, pois retrata um casal, em vez de um jovem entre duas mulheres. Falta também a imagem do anjo com o arco e flecha.

A Roda da Fortuna também tem seu simbolismo bastante deturpado, pois não encontramos nenhum elemento clássico deste Arcano – a Roda aqui na verdade é um disco no colo de uma pessoa. Na carta da força, opções bizarras e curiosas. Essa carta tradicionalmente retrata uma jovem segurando as mandíbulas de um leão. Pois não só o leão não foi utilizado, mas trocado por uma onça, como a jovem encontra-se montada no felino. Também falta o símbolo do infinito. Na carta do Diabo falta o casal acorrentado ao mesmo, na Estrela a mulher não está nua, e faltam os clássicos vasos derramando – um na água, outro na terra.  Na carta da Lua, faltam as torres, o lago, o crustáceo – além dos dois cães que guardam as colunas. No Sol não vemos o muro, e em vez de um casal de jovens ou crianças, vemos adultos. No Julgamento, faltam as lápides e o anjo da anunciação, e finalmente, em o Mundo, a mulher está vestida em vez de semi nua, faltam os bastões, a guirlanda e os quatro elementos a sua volta.

Arcanos Menores: A primeira coisa que chama atenção é a paleta de cores escolhida para cada naipe, totalmente desassociada aos elementos que estes respresentam. Chama muito a atenção porque, neste baralho, cada naipe tem uma paleta bem definida. No Naipe de Paus, associado ao elemento Fogo, predominam os tons esverdeados. No de Copas, associado a Água, são tons amarelos e terrosos. o Naipe de Espadas, associado ao Ar, oscila entre predominância de bege e de preto. E o naipe de Ouros, associado ao elemento Terra, até apresenta predominância de marrons e tons quentes em algumas cartas, mas logo os azuis e roxos passam a dominar.

Na simbologia das cartas, os naipes de Ouros e de Copas são bem fiéis em retratar as situações representadas por cada arcano. Já nos naipes de Espadas, e em menor grau, no de Paus, as situações são retratadas de forma meio repetitiva, o que não teria ocorrido se as ilustrações seguissem as idéias apresentadas no Rider Waite (que deu origem a linha de Tarots com os Arcanos Menores com situações ilustradas).

Tarots Felinos

Sou apaixonada por gatos e Tarots… Portanto,  nada mais natural que minha completa fascinação por baralhos que reunem os mistérios desses dois universos.

Goku e meus Tarots felinos

Atualmente, possuo cinco baralhos com essa temática:

  • Tarot of the Cat People, por Karen Kuykendall – U.S. Games
  • The Baroque Bohemian Cats’ Tarot, por Karen Mahony e Alex Ukolov – Magic Realist Press
  • 22 Arcani “Gatti” , por Osvaldo Menegazzi – Il Meneghello
  • Medieval Cat Tarot, por Lawrence Teng – U.S. Games
  • Tarot of White Cats , por Severino Baraldi – Lo Scarabeo / Llewellyn
  • Tarot of Pagan Cats, por  Magdelina Messima e Lola Airagui – Lo Scarabeo / Llewellyn

Nos próximos posts publicarei minha impressão sobre cada um deles, comentando a arte e a simbologia utilizadas nas cartas.